
Capítulo I: O Andante
Ele caminhava sem contar os passos. Andava como queria, como quem pode controlar a própria direção, típico filho prepotente da inocência inata; as fronteiras de seus passos eram tão anfractuosas quanto o seu saber, o que ele menos desconfiava. Seus pés errantes seguiam razões-guias dos líquidos de vísceras e batidas imperceptíveis em seu coração.
Bem distante desses passos, marcados por irresistíveis impulsos, havia o deserto com suas rachaduras no chão, dunas de sílica e sustos das topadas, como um refúgio desconhecido e difamado; à volta do andante, hordas de iguais, ciosas por ritualizar suas rotinas, vezes como cardumes de peixes, vezes como novelos de serpentes.
Conheceu e adotou uma Loba que do nada surgiu e se afeiçoou a ele. Certa vez, carícias em seus mamilos e seu pescoço peludo, mimos já casuais e parte das muitas cenas cândidas que viviam, fizeram-na revirar os olhos e expor o ventre, deitada sobre seu colo em ninho. Os olhos de entrega total ficaram zarolhos, reviraram até ficarem brancos; de tão confiante e relaxada, ela parecia morta. Sua boca se entreabriu e os dentes pontudos surgiram sem que o ameaçassem, e ele viu como era esquisita e feia a cara da entrega e da confiança. Amou o feio e o esquisito naquela Loba, estranhou as faces belas de seus semelhantes, que, em multidões espremidas, o empurraram ao deserto, onde o guiou sua Loba desgarrada.
Pensava que sabia tudo, que sabia que merecia. Que tudo o que via, tocava e ouvia trazia a verdade em si. Pôs a culpa no olfato quando começaram assim os erros.
Cansou quando percebeu que não fora feito para viver sob a água nem voar como os pássaros.
Cansou de seus pensamentos atados à ilusão de que o que captava na aura de seus sentidos pertencia a ele. Negou a importância dos instintos como vis traidores, neandertais de museus construídos pela deusa razão. Perdeu-se na ausência de ira.
Andou, andou e andou com a Loba companheira, que nunca o deixou. A solidão foi cercando tudo, o deserto era grande, era imenso; os sibilos de corujas e tempestades diziam e mostravam, cada dia, que ele não tinha nada a ver com as intenções do acaso. Os passos da Loba ao seu lado, serenos, repletos de uma satisfação vinda de mistérios, tornavam o desistir da marcha coisa mais que sem sentido.
Ele pensava mais intensamente no que acontecia nas profundezas do oceano que não via, na árvore que caía no coração da floresta, nas batidas de seu coração que circulava o sangue nas veias para que seguisse adiante... Mas para onde? Se o coração era tolo, o que mais podia suster a sabedoria?
Quando o cansaço retirou toda necessidade, o coração continuou a bater, mesmo assim. Como o sangue e os fluidos continuavam circulando pelas pernas, só restava aonde ir. Mas ir aonde?
Chegou à beira de um abismo imenso, sem fundo. Em meio a tantas confusões, sua capacidade de possuir o que via, ouvia ou tocava, já era ínfima. Só a Loba não se fragmentava em suas vistas, em suas fantasias. Ela se tornou todo seu mundo e todo seu afeto. Seu comprazer-se em estar com ela, e, vice-versa, mantinha-o fincado no chão que se movia como rios de lava a arrastar rochas sólidas, deslocando-se num tempo acelerado, muito mais do que o dele. Os acontecimentos o engoliam como um predador a cada canto de seus anseios.
Lagartos nas paredes anfractuosas brincavam entre si, desafiavam o abismo, comiam insetos. O caos a sua volta se transformava em graça e perfeição a centímetros de suas patinhas e à volta delas, como pocinhas de sanidade interrompendo a pele enferma e ulcerada da realidade.
E aquele abismo a sua frente... A Loba deitou-se para dormir.
Capítulo II: Um Último Milagre
Ao lado do andante, surge um Sapo, que parece perdido. Dá medo, não por causa de sua aparência glandular e asquerosa, mas porque talvez as inocências dos inocentes que salvam estão sendo afetadas, e que sua lobinha perca seu sono tranquilo com que o acompanha, ainda que travado pelo dever de conhecer todas as coisas. Não havia predadores lógicos, e quem devia devorá-lo salvava-o no mundo do puro instinto. Seu Sapo mira o abismo por puro instinto, ensinando-o, sem saber, como devia pensar, e o que era enganoso no pensar.
Ele esperou que o Sapo lhe dissesse algo como quem dá chance ao último milagre. O Sapo inflava e desinflava a goela, seus olhos fixos num inseto que passava por perto, vez ou outra. Ele queria ser como o Sapo e só precisar de insetos.
Mesmo que o Sapo não demonstrasse interesse, tomou-o no colo, e deu-lhe besouros que passavam por ali, e ele não quis. Sua Loba, enciumada, ganiu. O andante pressurosamente se levantou, pôs o Sapo de volta em seu lugar e disse a sua amada:
Foi o único comando que lhe daria. Ela serenou, voltando a dormir enrolada em sua majestosa cauda.
Os pés do caminhante se insinuaram na beira do abismo e grãos de areia caíram lá em baixo, no fundo que não se via. Sua Loba despertou por breve instante e balançou a cauda. Ela não o conhecia, não podia saber o que ele desejava, e assim confiava e o amava. Assim o salvava, sustendo-o num sentido magnânimo das coisas, deixando-o são em meio à sede e ao caos. Aquele seu despertar e dormir eram como movimentos de um pêndulo de relógio que davam graça e consistência ao tempo vivido do andante.
O Sapo coaxou e depois ficou quieto, chamando sua atenção e despertando seu encanto, já ressecados no calor do deserto. Suscitou no andante outro pensamento: não sabia se estava louco ou não. Se louco, porque sentia o roçar dos grãos de areia sob seus pés e mesmo o das órbitas dos elétrons fluindo nas circunvoluções de seus miolos? Se são, porque tão só?
O tic-tac dos fatos se desenrolava assim entre dúvidas e o puro prazer do fenômeno. A Loba acordou enésima vez despertada pela inquietação do andante, mas tranquila estava. Olhou para ele, para o abismo de seus olhos. Quando os via e encontrava o que queria, voltava a dormir em seus sonhos tranquilos.
Ele voltou-se para a goela imensa do abismo no deserto, insinuou seus dedos dos pés, mais alguns milímetros; olhou para baixo, para ver que não havia outros olhos consoladores, que ele não tinha uma cauda de lobo, nem para quem a abanar. Seus dedos dos pés vão pouco mais à frente, empurrando outro tanto de grãos de areia que cai lá em baixo, dando-lhe despeito por não saber o que aqueles grãos agora sabem.
Se fosse para frente e despencasse, continuaria sendo a mesma coisa, como certamente continuavam areia os grãos que se precipitaram? Temendo que não, pensou que a direção da marcha era o retorno aos seus, como um filho pródigo.
De volta aos milhões de rostos que o cercavam, sem sede, sem dor nos pés, sem cascas na pele, continuou sozinho por causa da Loba companheira, que causou inesperada estranheza, repulsa e medo — eles não sabiam de sua inocência de fêmea, nem de seu sumo poder para reconciliar com os instintos e como era natural ser parte das matilhas inferiores. Horrorizaram-se com seus longos e magníficos caninos. Nem eles nem o andante compreendiam porque era impossível achar o igual em meio aos semelhantes. De como era natural ser um lobo dócil, ser um dócil lobo. De como era natural andar pelos desertos e tentar decifrar o fundo do abismo, até mesmo desejá-lo.
Pobres semelhantes que nem chegavam a ser lobos!
Sua vida ficou consistindo nisto, indo e voltando à beira do abismo, protegendo e sendo protegido por sua Loba amada. O Sapo sempre estava lá, e lhe despertava muitas ideias escondidas. Agora lhe dizia que não era a hora ainda. De voltar ou de se atirar.
Capítulo III: O Canibal
A inteligência dos inteligentes pode assumir as formas de insanidade peculiares às limitações de cada ser trazido ao mundo, mesmo que o raio de sol que o criou tenha sido o mais magnífico.
Assim brilhava a citada estrela, cujas radiações se sujavam ao atravessar a tarde na atmosfera poluída até chegarem naquela sarjeta e focarem a vida insignificante, fedida, puída, coberta de andrajos catados em lixões dos sobejos, cuja face de expressões antagônicas se espremia numa barba longa e amarelada.
Não se podia intuir sua idade, sua personalidade, sua identidade; era como a paisagem mutante dos entulhos de lixo que tinham formas diferentes a cada dia.
Remexia uma lata ou boqueirão buscando algo, desprezava objetos esdrúxulos que, em sua imaginação contorcida, ganhavam significados mais diversos, retendo aqueles que, por um instante de sanidade mental, conseguiam um título qualquer em suas considerações inimagináveis.
Era curioso como os outros mendigos, ao contrário dele, davam prioridade à cata de comida. Nem mesmo mendigava. Ele não era visto comendo nem se regalando com pedaços de sanduíche desprezados nas cercanias de fastfood. Podia-se, por conta disso, até pensar que havia um lapso comportamental de higiene naquela aparência de boneco de fezes.
Havia outras diferenças. Debaixo da capa nauseabunda de lodo e sebo de pele, infestada de ilhas de piolhos, notava-se a presença de capilares sanguíneos róseos e ingurgitados e, sobre as saliências ósseas, as almofadas de gordura dos bem-nutridos que lhe davam uma aparência robusta. A barriga grande devia-se a uma capa espessa de gordura que a forrava e aos gases nas vísceras, por sua vez, gases de milhares de vermes gorduchos que se alimentavam dele.
O Canibal se sentou na calçada, ignorado pelos milhares de transeuntes que passavam. Eles só cuidavam em desviar para não tocá-lo e não sujarem suas roupas de grife, gerando-se um pequeno círculo de solidão e sossego ao seu redor.
Sacou, de dentro da camisa imunda, um pacote de papel grosseiro e rasgado, que embrulhava um objeto mole e acinzentado, como um feijão gigantesco. Ele começou a comê-lo a dentadas serenas e compassadas, como se meditasse no gosto. Já alcançada a medula do seu alimento grotesco, gotas de sangue escarlate escorreram, perpassando da boca para a barba, e desta para o asfalto negro, como se aquela parte não tivesse sido atingida pelo calor do cozimento. Os raios cinza do sol escaldante logo transformavam as gotas vermelhas em marcas informes e amarronzadas na superfície do asfalto.
O Canibal sempre começava seu alimento pelas vísceras. Quando sentia a saciedade chegando, passava às partes menos gordurosas. Guardou a metade do baço — seu feijão gigantesco — de volta no sovaco e enfiou a mão nos bolsos folgados das calças, sacando dedos humanos, aos quais chupou e engoliu, depois de mastigá-los o quanto achou necessário.
Depois de sua refeição rotineira, sempre ritualizada naquela calçada, ele se levantou e seguiu para os necrotérios e cemitérios abarrotados de seu alimento preferido. Às vezes, achava a carne humana em latas de lixo mesmo, o que o deixava imensamente feliz — assim não tinha de adular coveiros, médicos legistas ou assassinos para que lhe fornecessem a porção diária.
Os outros mendigos não sabiam apreciar, como ele, o furdunço que fumegava ao se assar a gordura de uma coxa num moquém improvisado, nem tinham paladar suficientemente apurado para captar o gosto que a carne humana adquiria no para lá e para cá das necessidades do quotidiano: um gostinho de peixe aqui, limão e passas ali, xampu e manteiga poliinsaturada, gasolina e fuligem... Assim, como bom degustador dos corpos dos que os utilizaram em busca de valores no caos, via-se solitário em seu costume. Sua humildade consistia em não se importar com a completa falta de valorização da carne humana por causa de sua abundância, nem se engalfinhar nas portas dos mac donalds em busca dos preciosos sobejos, como faziam os outros mendigos.
Capítulo IV: A Traineira
Vista de longe, com seu casco metálico e manchado com ferrugem, a embarcação iludia parecendo ir a pique, exausta de lutar contra as vagas incessantes que queriam engoli-la. O chão líquido ondulante, cor de cana em ponto de corte, movia-se assombroso como um cortejo de viuvez e seus véus negros multiformes, muito embora se visse, ao longe, as espumas brancas quebrarem nas praias distantes e sem significado, como trapos do vestido de noiva que um dia fora aquele mar.
Nenhum sentimento virginal surgia daquela visão enfadonha, pelo contrário; quando uma imensa onda trouxe consigo uma mancha vermelha de iguais dimensões das profundezas, misturada a fios leitosos e misteriosos, toda paisagem transmitiu um sentimento de consternação e náuseas. Não havia alguém ali por perto para protagonizar estes sentimentos, só a embarcação impassível, como que não submetida às leis da natureza, ficando fixa num ponto sobre a água bravia.
Poderosas correntes de aço subiam calmas, deslizando por uma polia rangente que as retesava na parte de trás da traineira, e a cada giro seu, a mancha rubra se tornava maior e maior. Uma rede imensa, como um balão invertido surgindo e flutuando no horizonte, começou a se destacar da água manchada, dando ao intelecto de qualquer um que pudesse observá-la uma espécie de julgamento das leis naturais que regem a fluidez dos líquidos, rejeitando-as, como se culpadas fossem das mortes de milhões de sardinhas presas dentro do infame balão.
Ouviram-se gritos esquisitos, não-humanos, mas com um timbre aterrorizante; gritos que pareciam esquecidos, ignorados, talvez conspurcados pelo ranger das emendas metálicas e do girar de motores e das polias. Aquele subjugar tão eficiente da natureza elevava a sinistra e engenhosa canoa à condição de mito, de demônio sobrenatural, e mesmo as sardinhas massacradas submetiam-se docilmente a este invento de vulcanos bípedes, entregando seus últimos movimentos de guelras nas malhas aguilhoadas.
Os gritos medonhos, contudo, não vinham delas. Enquanto os containers de boca aberta na barriga de aço engoliam tais piabas estúpidas, surgiam em volta da traineira miríades de bestas marinhas. Primeiro os tubarões em piruetas prepotentes, depois belugas, focas, cachalotes, pinguins e baleias assassinas, em balés mais românticos.
A mancha de sangue se desfez aos poucos, dando lugar à outra mancha leitosa e cinza em certos ângulos e em redemoinhos, certamente o lodo do fundo do mar que a cauda assassina da barcaça revolvia.
Não se sabe se de fome ou horror, as bestas e alimárias marinhas citadas começaram a inchar, descoordenar os movimentos sutis de suas caudas e barbatanas, expor os abdomes para a luz do sol e depois morrer. Aos milhares, aos milhões... Os movimentos das ondas bravias — como se estas, além de subjugadas, estivessem aliadas ao escárnio à natureza que as insurgia — levavam os cadáveres pútridos para as enseadas, praias e rochedos de encostas, para dar aos homens as felicitações por sua triunfal diplomação em tecnocracia da indiferença.
Na parte de trás da traineira, elevadas do chão da proa dois andares acima, tal e qual sinistra residência, com seus jardins de corrimãos férreos, correntes, portalós solitários e tubos paralelos dispostos em várias direções ao olhar, havia as cabines de comando da tripulação como posto de observação da guerra com vitória garantida.
A tripulação se mantinha serena, confiante que estava no automatismo misterioso das entranhas de sua nau que combatia as bestas marinhas. Como toda tripulação hodierna, seus cérebros bem testados e cheios de informação agitavam-se em pensamentos mil, os quais os atiravam a várias atividades e estas, por sua vez, já estavam sendo executadas pelos chips. O tédio resultante ao seu redor ficou mais denso que a dor encenada nas ondas do lado de fora. Os três ilustres desenvolviam suas atividades esconsas aproveitando o ócio do pensamento enxertado em suas mentes.
O primeiro observava formigas pretas lambendo, sobre a mesa, as bordas das gotas meio desidratadas escorridas de seu copo de café, perguntando-se como aquelas puderam atravessar o mar e estar ali. Irritado, às vezes esmagava-as, e depois assistia pacientemente outras retornarem e recomeçarem suas roséolas de alimentação em torno das gotas escuras. Em seu crachá, lia-se sua função principal: “Presidente do Conselho”.
O outro integrante era uma mulher, de olhar alhures, voz levemente rouca que nunca alterava o tom sutil ao se dirigir aos demais, cujas feições tentavam alçar a ternura, mas não conseguiam. Trazia sobre si um jaleco branquíssimo, e um estetoscópio no pescoço tirava a beleza do colar com pingente de baleia. Suas mãos meio gorduchas estavam permanentemente recobertas com luvas de látex, e ela ia e vinha da cabine ao lado, a do terceiro integrante da tripulação. Sempre que saía de lá, trazia uma seringa cheia de sangue e a injetava num biquinho de um aparelho cilíndrico e enorme fixado simetricamente aos outros tantos do painel de controle da traineira. Depois de alguns segundos, uma fenda perfeitamente horizontal na base do cilindro ejetava um pedaço de papel, onde sobressaía o título em maiúsculas: “BOLETIM”.
Ela destacava o pequeno pedaço de papel, ia até o presidente e lia: “mil e quinhentos leucócitos, oitenta e sete por cento de neutrófilos e doze por cento de linfócitos. Um por cento restante de inexplicado.” Sobre o crachá da gorduchinha estava escrito: “Segundo Membro do Conselho”.
O presidente retirava os olhos das formigas por um instante e respondia-lhe, autoritário: “Ainda há muito de inexplicado. Refaça os testes.” Ela retornava à terceira cabine.
Dentro desta, havia pouca mobília e uma serenidade doentia. Os janelões de vidro dispunham às vistas o espetáculo de extermínio engendrado lá fora. Ignorando-o, o Segundo Membro do Conselho aproximou-se da cadeira de rodas com olhar fixo numa veia imensa que saltava de um antebraço esquálido e pálido. Sobre a cadeira de rodas havia um homem jovem, que seria ainda mais jovem se suas feições não estivessem deformadas pelas bochechas descarnadas. Embora voltado para os janelões envidraçados, seus olhos estavam cobertos por uma venda branca, manchada de pus. Suas feições resignadas se contraíram de dor quando o Segundo Membro espetou solenemente a agulha no tubo sanguíneo e azul de seu antebraço.
Em seu crachá estava destacado: “Terceiro Membro do Conselho”.
O Segundo Membro saiu do recinto sem acrescentar outros sons ao silêncio.
Capítulo V: A Loba
O caminhante se mantinha em suas caminhadas. Sua Loba feliz o metamorfoseava cada vez mais em lobo. Ela parecia orgulhosa ao vê-lo se coçar com pulgas e a espreitar coelhos detrás das colinas. Era belo aos seus instintos vê-lo resistente ao calor do deserto.
Era estranho, mas seu lobo só acariciava os coelhos e lagartos quando os alcançava. Em muitas das noites que dormiam juntos, ela desistia das caçadas para se estirar ao seu lado e aquecê-lo, e também por causa daquela inebriante sensação de seus dedos roliços e compridos a acariciar seu pescoço e suas tetinhas virgens.
Ele não tinha gosto de caça, sem que isso impedisse que a Loba cobrisse seu rosto e seus lábios com lambidas lépidas e sedentas de seu suor salgado.
Era linda sua expressão jovial quando fazia aquele gesto com os lábios que iluminava o deserto com pura alegria. Só aquele lobo tinha tal expressão. Era instigante vê-lo andando sobre duas patas apenas, e muito mais quando ele desaparecia por detrás de uma tempestade de areia, deixando-a só, voltando, dias depois, cheio de sacos coloridos com um alimento estranho e gostoso que caçava nas tocas de seus outros amigos. Estes não eram lobos, como ele. Podia segui-lo até sua misteriosa toca, não fosse o fato de ter sido caçada pelos outros bípedes na única vez que tentou.
Seu lobo deu a sua vida uma estranha calma, uma estranha comodidade, preferível, sem dúvida, às emoções de suas patas correndo atrás de lebres inocentes. Enchia-a de gostos novos; afastava-a da crueldade e dos pés de cactos.
De repente, ele ficava atento às imensidões do deserto a circundá-los. Seus olhos, nestes instantes, eram puros e bestiais. Ele buscava uma coisa para caçar que nunca estava lá. Caminhava pelo deserto levando-a consigo e, quando cansado, tomava-a nos braços, feliz, para brincarem de novo. Seu latido estranho e musical, como o cantar das aves mansas, só entendia através dos olhos, daqueles olhos profundos, tristes e poderosos, que sorriam ao vê-la; tranquilizavam-na, e ficavam famintos, irados, desesperados, quando miravam o fundo de um abismo que interrompia suas caminhadas. Ficavam lá horas, com o coaxar monótono de um sapo asqueroso a lhes infiltrar o sono pelos ouvidos. Ela dormia, e acordava com o som de pedrinhas despencando lá para baixo. Seu lobo de pé, resoluto, inabalável, olhando o infinito nas profundezas.
Capítulo VI: O Sapo
Instinto puro. Completa docilidade na ausência de pensamento. Leve e sereno escape da inércia dos cristais e das raízes presas na terra.
Uma indefinível vontade nas entranhas, e não na mente, de retornar à lagoa de oásis onde surgira, para perpetuar-se, sem a angústia de se perguntar o por quê. Um obedecer alegre, tácito, a deuses misteriosos, magnânimos, fugidios e onipotentes. Vívido mecanismo úmido, gelatinoso e agradável.
Havia pouco ou nada a temer. Exceto num dia: uma sombra com braços erguidos do chão, compridos, tomou-o, trocou todos os estímulos conhecidos por carícias ternas nas protuberâncias dorsais de suas tenras glândulas venenosas, mas como um macho que não fecunda.
Capítulo VII: A Tempestade
O caminhante acuava-se entre o abismo e a tempestade de partículas de redemoinhos e mistérios, agarrado a sua Loba, dando e recebendo abrigo. As tempestades estavam quase decifradas, não destruíam, incomodavam os olhos, mas não chegavam a sufocar. O abismo, outrossim, continuava coisa a persistir aterradora e impenetrável. Agachado e observador, o andante acariciava sua Loba, enroscado ao pescoço forte e fofinho dela, retornando do êxtase ao encanto. As raízes dos cabelos em fúria gravavam as mais intensas impressões da tempestade passageira.
Aquelas tempestades deixaram de ser acidentes aos passos do bípede. Assaz desejadas, traziam sentido em seus sibilos de caos, e ele as observava desfazerem-se para retornar ao cenário tranquilo, transparente e aquecido do deserto.
Por entre as penedias insurgentes das dunas amareladas, como efeito natural ― mas inesperado ― da última procela, vem uma figura cambaleante, tentando andar em linha reta, imprecando, num solilóquio esquisito, algo às pedras.
Vinha decidido na direção da Loba e seu andante, mas passou batido. Marchava atrás de um objeto branco e flexível que ia arrastado acima dele pelos ventos diáfanos, recém paridos da belíssima tempestade. Poluía os ventos com um cheiro de carniça, como uma desforra. O andante abraçou sua Loba num instante de medo diante do semelhante desconhecido.
Ao ser interrompido pela beira da fenda infinita, o Canibal parou bruscamente, híspido como uma estátua de mármore. Parecia olhar arrogante o saco plástico sumir na imensidão da grota.
Ele disse, rendendo-se à perda de seu objeto infame, que por alguns minutos infestou a paisagem inocente do âmbar da terra e do azul celeste. Voltou-se e mirou o andante abraçado, com olhos expressivos de temor e busca, a sua Loba de pelos ondulantes e obedientes à agradável ventania.
― Era só um saco de lixo...
Disse o andante, defensivo, como a voz das razões presas em páginas de romances.
— Um saco? Que blasfêmia! Não era um saco! Era um filhote de pássaro sem pernas, que escapou de minhas mãos quando o encontrei num ninho feito por avestruzes de ferro! Não viu suas penas brancas com brilho de madrepérola? Ele dormia entre latas e aquecido em trapos quando o encontrei. E fugiu ao ser arrancado das entranhas do monturo por uma das minhas mãos, não sei se a direita ou se a esquerda.
Respondeu o Canibal, olhando as mãos imundas, um lado do rosto encanto; o outro, fúria.
Capítulo VIII: O Abismo
Trinca infinita na placa gigantesca da rocha desértica. Irritante, não fosse sua beleza pelo azul do céu que engolia e do branco das nuvens esparsas que a atravessavam, sem temor, ao outro lado que não se via. Era prova inconteste das imperfeições das vistas humanas, ainda que as deslumbrasse. Era tão terrível sua profundeza que nada divisava seu término, nem a águia planante.
Interrupção de passos meditativos, da tranquilidade de anciãos que descansam em suas experiências, da sabedoria do mais sábio. Frustrante para peregrinação daqueles que buscam os deuses. Maldição para a loucura dos que buscam pássaros sem pernas.
Sua beirada, outrora repleta de pedras e lascas multiformes de rochas escondidas, já se encontrava despovoada de tais objetos, pois o andante as atirara lá embaixo, em momentos de desespero por não poder ir adiante, e não poder ser parte daquele abismo. Além do mais, tal beirada agora estava adornada por mosaicos de pegadas, infinitas pegadas, na areia amarela e finíssima, como um bordado no veludo. Todas as pegadas foram feitas pelo andante e sua Loba que o seguia, sempre o seguia, que para sempre o seguiria. O Sapo, quieto, continuava no rebordo com olhos fixos no nada esperando suas moscas.
O Canibal dava suspiros asquerosos de animal irritadiço, ia para lá e para cá desfazendo as pegadas com as suas, pingando suores lodosos, em busca de alguma coisa que só poderiam ser as pedras extintas. Subitamente, suas cáries surgiram num sorriso de um lado da boca, enquanto o outro permaneceu inexpressivo. Correu poucos passos e agarrou o pobre Sapo que, de tão quieto, parecia uma pedra.
O andante, num salto, desenlaçou-se de sua Loba quando viu, atônito e incrédulo, o Sapo ser atirado goela abaixo do abismo. Ainda tentou salvar o bicho, que caiu rodopiante e com as patas abertas para se agarrar ao ar, debalde. Parou nos lindes mortais e o viu desaparecer. O Canibal, satisfeitíssimo, aproximava o ouvido o quanto podia da bocarra abissal, cuidando para não ter o mesmo destino do Sapo.
Perguntou, desfeito em pranto, o andante. O Canibal o olhou assaz surpreso.
— Ora, porque pergunta? Você despreza pássaros e cuida das pedras? Por acaso é louco? Estou tentando ouvir o fundo!
O andante, parecendo possuído por dor e razão maiores que o abismo, fez troar o eco de suas palavras à imensidão desértica:
— Não era pedra! Era puro instinto! Era vínculo de história esquecida sob caprichos da verdade! Era o calar de minha conversa íntima! Se queria ouvir o som do abismo mais profundo, bastava encostar o ouvido no meu peito!
Terminando essas palavras, atirou-se ao abismo, sob o olhar de curiosidade do Canibal e dos uivos desalentados de sua Loba.
Capítulo IX: O Conselho
O gosto do branco. A cor do pássaro da paz absoluta. Ele era tal pássaro, não sem pernas, mas sem asas, que voava, caindo na garganta do abismo. Foi assim que o andante deixou de andar enquanto caía no seu derradeiro desejo. Foi assim que sentiu tudo.
Quando acordou, viu-se envolto em um emaranhado de cordas ensanguentadas e untadas com gordura de peixe. Estava sendo erguido do mar revolto e profundo para uma abertura quadrada e completamente escura em seu interior. Catracas, polias e braços mecânicos conduziram-no, dentro do retículo encharcado, até a base do container. E a rede deixou-o solenemente, lúcido e sobre os dois pés, sumindo de volta pela abertura quadrada e luminosa, enquanto ele registrava seus movimentos com os olhos bestificados.
Minutos se passaram até se ouvirem palavras de duas cabeças, que surgiram como duas bolotas escuras no perfeito quadrado pálido, olhando-o atentamente lá em baixo; tais palavras ecoaram entusiásticas, ferindo seus tímpanos, ricocheteando nas paredes de aço:
― Não se preocupe, acaba de ser salvo pelos métodos da ciência!
As cabeças sumiram. Houve um longo silêncio, quebrado apenas pela rede que voltava, trazendo miríades de sardinhas, pelas quais foi escalando a cada novo monturo largado, como ele mesmo o fora. Já liberto da imensa lata, viu-se sobre o casco da traineira, que começou a singrar calmamente em direção a praias longínquas. A noite caiu lenta, esmaecendo os traços de todo belo que restava, ficando só a sensação de seu próprio corpo sendo jogado de um lado ao outro pelo pêndulo casco frio.
Andou pela embarcação solitária como fazia no deserto, resignado ao constatar que não passava de um fantasma sequestrado nos conveses e sacadas espectrais. Depois de percorrê-las em andares sucessivos, chegou às cabines dos tripulantes-conselheiros. As luzes intensas e artificiais encheram seus olhos de alívio e esperança.
Observou os ocupantes, por longo tempo, através das janelas. Um homem com olhos desiludidos, solenes e por vezes arrogantes, observava formigas sobre uma mesa, colocando as pernas cruzadas sobre a cadeira da frente quando o tédio parecia retesar sua alma. A intervalos regulares, uma moça com trajes de médica surgia de uma porta fechada, com pipetas e seringas na mão. Ele os reconheceu como os donos das cabeças que apareceram na abertura do container onde fora deixado. Andou para a parte de trás das cabines e viu, pelos janelões envidraçados, um homem caquético e cego sentado numa cadeira de rodas, a meditar numa espécie de dor que o consumia e instruía. Procurou o Sapo, mas, nem sinal dele. Ainda se condoía por causa do Sapo.
Capítulo X: A Justiça
Era impossível entrar naquelas cabines de comando e interromper a sublime atividade dos conselheiros. Tão absortos em sua santificada indiferença! Tão apartados da carnificina! Tão autossuficientes nos pedestais da ciência! Tão solidários com os chips que controlavam aquela traineira, mais pareciam anjos de mármore a adornar os túmulos dos bem-sucedidos!
Assim, o caminhante resignou-se à sacada pela qual contemplava as ondas do oceano sendo fendidas na escuridão, por toda noite.
Na madrugada alta, a embarcação gigantesca chegou às praias, aos cais e portos, onde distribuiu a sardinha a ser consumida por todo mundo, por todas as cidades adormecidas. Depois deu uma meia-volta plácida, retornando ao mar alto com a mesma serenidade galvanizada.
O dia acordou lentamente, trazendo consigo mais espetáculos de extermínio, mais ondas rubras e cinzentas, mais carcaças de cachalotes mortos por fúrias de inanição. O andante quase nada percebia, o horror do espetáculo não penetrava seu intelecto acostumado à vivacidade do deserto. Olhava à frente pensando no Sapo, imaginando como fora sua integração ao abismo.
Ao seu lado, uma mão encharcada e estendida trazia consigo, sobre uma enorme e pálida palma, repentinamente, o cheiro de carniça e o pobre Sapo vivo, intacto, com os mesmos olhos esbugalhados à procura de moscas. Isso avivou sua alma com alegria cristalizada, como açúcar na língua. Despertou seus sentidos de volta ao todo. Devolveu seus instintos e sua compreensão. Ele tomou o sapo e o envolveu nas suas próprias mãos, sem perceber logo quem o trouxera.
— Eis a sua pedra. Pedra estranha, que flutua nas águas. Nadei por toda noite para trazer-lhe de volta. Mas não achei meu pássaro branco sem pernas.
Disse-lhe o Canibal, com as roupas imundas e fétidas, gotejantes e acrescidas do cheiro de maresia e do morticínio das águas.
O andante sorriu largamente, viu o Canibal por completo ao seu lado, e respondeu sob seu olhar analítico e complacente:
— Não é uma pedra. É um sapo. Já lhe disse!
— Vejo que a queda piorou seu juízo. Não faz mal. Venha, eu te guio. Venha, eu te mostro.
Redarguiu o Canibal, todo benevolente, estendendo-lhe o braço a gotejar aquela sopa de água salgada com sujeira humana e sangue de peixe.
Assim, conduziu o andante para dentro das cabines de comando.
Esse momento de sanidade fraternal durou um minuto.
Pararam então a observar, cada um com seu próprio ângulo e reação, as idas e vindas do balão assassino, as formigas subindo e descendo nos pés da mesa, o engate da seringa no bico do cilindro metálico, o ranger das catracas e engrenagens, e os urros de agonia das bestas marinhas no lado de fora.
O andante desejava sua Loba e em seus desejos mantinha-se alheio, imparcial às cenas, muito embora as observasse com graduada atenção, sem surpresas por tê-las visto na noite que passara.
O Canibal começou a andar freneticamente, observando tudo, num observar que era o mesmo que alterar tudo, pôr tudo de volta no caos. Seguia o piscar dos painéis de controle, tentando acoplar sua cadência ao ritmo frenético de sua alma em fragmentos de um espelho remontado. Tomava os Conselheiros, sacudia-os, sem conseguir livrá-los de suas mentes embotadas de estatísticas.
Logo estavam reviradas as mesas e alocados juntos, lado a lado, os três Conselheiros, defronte às vidraças que encenavam o morticínio marinho. O Canibal os colocara assim, sem dificuldades, como quem coloca bonecos de outras crianças ausentes em locais errados.
Tomou as canetas dos bolsos do presidente, enfiou as seringas da médica nos próprios bolsos e ajeitou a cadeira de rodas do terceiro conselheiro para que se apoiasse nas vidraças e parasse de correr ao sabor do menear da barcaça. Retirou as ataduras dos olhos dele e as recolocou desajeitadas, depois de meditar grotescamente o diagnóstico.
O andante pensava na Loba e cuidava do Sapo, acariciando suas glândulas das costas. O Canibal gritou três vezes para que prestasse atenção no discursar dos conselheiros.
— É preciso reduzir a taxa de inexplicado para zero por cento.
Disse o presidente, parecendo exausto por estar de pé.
— É preciso coletar o sangue, a análise contínua dos dados enxugará toda lágrima de sofrimento.
Disse o segundo membro, olhando exânime para a seringa na mão do Canibal.
O terceiro membro permaneceu calado.
O andante, sentado na cadeira antes ocupada pelo presidente, perguntou num arroubo de ingenuidade:
— Por que há o silêncio nos olhos dele?
Olhava penosamente ao terceiro membro. Os três conselheiros, de repente, tomaram-se de si e iniciaram um diálogo minimalista e secreto. Depois o presidente proferiu um decreto, sancionado por unanimidade:
— Condenado seja, andante, por questionar o estabelecido. Condenado seja por acusar o código de desdenhar o morticínio do lado de fora. Condenado seja por não dar provas contra quem mata as bestas do mar!
O andante, perplexo, desabou no chão sob o peso da culpa que sobre ele lançavam com olhares poderosos e esmagadores.
— Tudo isso, então, foi minha culpa?
Perguntou, suplicante, estendendo as mãos supinadas na direção deles. Nada lhe responderam. O presidente, contudo, não pôde assinar os papéis do decreto proferido, pois suas canetas encontravam-se em poder do Canibal. Este deixara, como num propósito de suas intenções esdrúxulas, as cenas se desenrolarem ao escrutínio de sua mente em desabar constante. Voltou-se ao penitente:
— Não sabe por que os olhos dele nada mais expressam?
— Não, eu não sei! Por que não me respondem esses conselheiros? Por que conhecem a mim mais do que eu mesmo?
O Canibal se aproximou dele, agachou-se até o chão onde se prostrava e completou sua sabedoria colérica lançando em seu rosto:
― Então eu lhe direi: Aqui, a justiça não é cega. Aqui, a justiça cega!
Dizendo isso, voltou-se aos conselheiros e retirou a venda dos olhos do Terceiro Membro. Dentro das órbitas vazias e infectas, socados estavam papéis impressos com todas as leis engendradas pela astúcia humana. O Canibal, então, os retirou um a um, lançando-os ao mar.
Capítulo XI: O Cérebro Global
Estabeleceu-se o caos. As ondas externas, mais altas que nunca, traziam cristas de sangue mais cintilantes. A traineira articulava suas infindáveis funções eficiente e rápida, muito mais que sempre, espalhando mais corpos dilacerados das bestas esfaimadas. As sardinhas já não cabiam no balão de seu descanso precoce.
O cheiro de carniça e sangue espalhou-se densamente como um vapor amarronzado, cujo ar, por sua vez, se revoltava com pequena tormenta, apoderando-se de algumas milhas a sua volta. A sensação dominante era de que o caos engoliria a matemática: dois mais dois eram cinco, mas tal ciência soberana só estava tentando conciliar suas leis e o “hum”, que sobrava anômalo, pendia para os lados das praias. Talvez ainda valesse a pena manter intacto o sorriso indiferente dos humanos!
Mesmo em meio ao caos, o Canibal, demonstrando suas habilidades na coleta de sucata, catava as ferragens que caíam aqui e ali e com elas fez seu moquém. Acendeu as chamas com papelada acumulada pelos decretos do presidente. As chamas eram suficientes para assar sua refeição. Voltou-se, sob o impotente olhar do andante, para os conselheiros e os devorou. O andante bestificou-se ante o semblante sem expressões e sem protestos dos conselheiros ao serem esquartejados.
— Por que os devorou? Você só deveria comer cadáveres! Vai me devorar também?
Perguntou, estupefato e aterrorizado. O Canibal o consolou:
— Cadáveres? Claro! Cadáveres! Eu só como cadáveres, meu caro! Não percebe que eles estavam mortos? Não percebe como atraíam formigas, e como ficavam imóveis diante de suas perguntas e de sua loucura? Quanto ao mais de suas dúvidas, eu não comeria sua pessoa, porque não é pessoa, é sapo, talvez lobo! Suas carnes repugnam só de pensar!
Ainda arrebatado pelo entusiasmo que transbordava de olhos esgazeados e que se revolviam como borbotões de um rio revolto e poluído, o Canibal tomou-o pelo braço, e lançou-se com ele ao mar. Arrastou-o consigo até o fundo, e o fez, num passeio panorâmico, observar com os próprios olhos o que se desenrolava sob as águas marinhas. O andante procurou, correspondendo aos acenos e orientações do Canibal em agitação, atentar-se a cada detalhe, a cada movimento, mas só percebia as redes e seus acúleos deslizando e talando regiões imensas do fundo oceânico.
Voltaram às cabines desalentadas e tomadas de desolação, e o Canibal retomou suas palavras:
Perguntou, com um sorriso pueril no rosto, olhando fixamente para o curioso e perplexo andante. Este respondeu plácido:
― Refere-se ao morticínio dos pobres peixes?
O Canibal meneou a cabeça impacientemente, e o mirou profundamente decepcionado.
― Não! Não, sua besta insana! O morticínio é um engodo, é para desviar a atenção de seu propósito!
― Qual, então, o propósito?
O Canibal quase o esbofeteou, mas estacou, demovido por súbita clemência, olhando para seu discípulo louco. Retrucou com uma surpreendente candura:
― Não vê o que eles fazem no fundo da terra e dos mares? Não vê o que eles escalavram com sua traineira, com a desculpa de exterminar sardinhas e bestas do mar? Não vê?
— Não, sinceramente, não...
― Pois eles, amigo, esculpem um cérebro humano! Não viu os abismos, fendas e montanhas do mar serem acariciados pelos aguilhões e retículos de sua tecnologia, como um artista acaricia o mármore com seus trépanos? Querem transformar tudo num cérebro de proporções globais! Não pôde ver as gigantescas formas no fundo do mar que ficaram iguais aos relevos e sulcos sem sentido dos miolos?
Enquanto descrevia suas conclusões, gotas de saliva umidificavam e escapavam de seus lábios, por sua vez acariciados frequentemente pela língua impudica. O andante mirava-o incrédulo.
― Oh, caro amigo ― prosseguiu o Canibal, mais pausadamente e mais gentil ―, deixe-me dividir as palavras para seu entendimento deformado! Não posso permitir tal absurdo! Será o meu fim! Morrerei de saciedade se tiver de devorar tal cérebro!
A traineira começou a ranger suas articulações metálicas como se quisesse imitar os gritos dos animais marinhos. As ondas já a arrastavam ao seu sabor. Os ventos a rodopiavam, os painéis da sala de comando começaram a piscar seus leds e a disparar seus alarmes furiosamente. O Sapo era patinado no chão metálico de um lado para outro, no aterrorizante balançar da barcaça, a despeito das tentativas do andante de segurá-lo, tendo de desistir para poder segurar a si mesmo num cano robusto preso na parede.
O Canibal, mais uma vez, interveio.
Sacou uma das seringas do bolso e retornou às ondas. A crista dessas vagas ensandecidas continuava puro rubor do sangue dos peixes. Depois de tentar algumas vezes, o Canibal conseguiu aspirar o líquido delas, e retornou à cabine de comando, tentando ratificar os dez mililitros na seringa graduada, convergindo os olhos zarolhos para a minúscula numeração.
O andante segurava-se impotente, profundamente afetado por todas aquelas coisas. Seus olhos misturavam lágrimas e gotas de chuva que penetravam pelas portas em turbilhões. O Canibal o consolou mais uma vez:
― Não se abale, poupe seu fraco juízo! Deixe-me com as ideias, com a intuição!
Cambaleante, segurando-se nas ferragens ainda firmes, foi até a máquina cilíndrica e conseguiu acoplar o minúsculo bico da seringa, injetando o líquido vermelho que a muito custo conseguira. Em seguida, a máquina ejetou o seu BOLETIM: “o inexplicado revela-se!”
Depois de alguns segundos, a tempestade se acalmou, a traineira aprumou-se, e seus motores reencetaram o som surdo e cadente de suas bielas; a luz do sol reintegrou-se aos janelões de vidro e o Sapo parou num ponto ao centro de tudo. Sorrisos de alívio afloraram ao semblante do andante. Uma gargalhada divertida desabou da gorja do Canibal.
Capítulo XII: O Deserto
A traineira regurgitou as sardinhas ao mar, suas redes se recolheram nas articulações metálicas como patas de uma aranha morta, e começou a singrar rumo às praias. Sua tranquilidade era extensão da tranquilidade que emanava de tudo, inclusive das almas dos dois andarilhos. As ondas do mar estavam azuis, como topázio líquido, pelas quais se deslizavam entidades indefiníveis de ideais lobrigados pela alma humana ― como perfeição, harmonia, paz, fartura... ― era um solo azul gelatinoso por onde surgiam e se nutriam as árvores e anjos do paraíso, cujos frutos e voos ainda não foram conhecidos pelo pensamento. As bestas marinhas, já recobradas da insanidade, já fartas de sardinha e desintoxicadas do ódio e ganância bípedes, seguiam a embarcação como se previssem novos auspícios naquela viagem igualmente nova.
O andante e o Canibal, como se convergidos numa raríssima e improvável afinidade, postavam-se deslumbrados na grade metálica de uma sacada, vislumbrando o mar à frente e as gaivotas tranquilas acima de suas cabeças; a suave brisa do mar agitava seus cabelos e retirava as auras fragmentadas de suas silhuetas, recobrando-lhes os brilhos e a harmonia. Um sorriso se esboçou em ambos, como criando um espaço virtual entre o horror e as benesses da existência.
Cabia na traineira toda felicidade, toda utopia, toda possibilidade de progressão sem competição, a não ser de ideias, como antes cabiam todas as sardinhas mortas. Deixou de ser açougue para ser um templo hiperbóreo. Por momentos, tornou-se o lugar mais desejável de toda Terra.
Seu destino pareceu eternamente errante, até que o Canibal, inopinadamente arrebatado por um impulso interior pelo qual se deixara obsedar, subiu lance de escada até o timão da nau. Nesse momento, começou a guiá-la solenemente, às vezes com giros bem medidos, às vezes bruscos.
― Avante, traineira, que já vejo meus pássaros de madrepérola!
Ele gritava eufórico, agitando uma das mãos para cima, apontando para sacos de lixo que esvoaçavam, às centenas, vindos das praias e das cidades.
O andante quedou-se extremamente desapontado. Pelo flanar tranquilo dos momentos anteriores, a nau pareceu ter destino certo às dunas e rachaduras do benfazejo deserto. Ele veio, nas últimas horas, antecipando alegremente o momento de pôr o Sapo de volta na boca do abismo revelado, e levar sua Loba para casa, finalmente!
Os estômagos da fortuna digerem igualmente o doce mel dos momentos ditosos, com o mesmo poder de dissolução das piores desgraças!
O andante girou a cabeça tristemente, saudoso, para o lado oposto, e se despediu silencioso da faixa ignescente do deserto que ficara bem distante.
Capítulo XIII: Não Tema, Você é um Lobo!
A traineira atracou em um cais invisível, próxima à praia. Enquanto isso, o Canibal corria atrás de seus pássaros com as vistas, e o andante mirava, teimoso, a linhazinha dourada do deserto no horizonte. Do outro lado, arranha-céus erguiam-se como formigueiros de vidro e aço, e as formigas que os habitavam continuavam comendo e bebendo, casando e dando-se em casamento, enfileirando-se inquietas nas ruas e avenidas, indiferentes ao mar.
A traineira, silenciosa, encetou o eco súbito de suas engrenagens que sopitou todo som e todo sentido, o qual deu a volta por toda terra. Seus habitantes, aparentemente tomados por paralisante nirvana, estacaram seus passos e olharam a sombria e imponente embarcação como se fosse esta o demiurgo e seu primeiro motor. Seus olhares arregalaram-se como estatuetas de terracota, quais habitantes ressurretos de misteriosa Suméria. O andante e o Canibal miravam a cena como dois arqueólogos que desvendaram vetustas pinturas rupestres, muito embora bestificados.
As pernas recolhidas da gigantesca aranha voltaram à vida, e as polias, catracas, alavancas articuladas, soergueram a aguilhoada rede de pesca, a qual se dirigiu precisa e lentamente a um ponto, bem no centro de toda aquela mandala de ruas asfaltadas. Todo olho a viu, cercada de anjos com asas de urubu. As pernas da traineira, outra vez silenciosa, deram um derradeiro movimento em catapulta, o qual abriu a rede sobre a cabeça de todos os habitantes da cidade, quais barbatanas circulares de uma medusa, e sobre eles desceu como a teia de uma aranha tecedeira.
As correntes robustas começaram a girar ao contrário, fazendo a rede arrastar-se sobre a superfície dos bairros, e a medusa começou a assumir, aos poucos, a forma do balão invertido que antes se inflara com sardinhas roubadas.
O andante tomou-se de pânico, um pânico tão cristalino que congelaria seu sangue, não fosse a água tépida do mar à qual se atirou. O Canibal, hipnotizado pela carnificina que juntava seu alimento predileto, ficou sobre a sacada superior da barcaça, assistindo tudo com uma espécie de libido arrebatadora no olhar. O andante gritou:
― Venha! Venha, Canibal! Fuja comigo para o deserto! Estará mais seguro preso às cristas do mar que nos retículos deste saco vingativo! Garanto que as goelas da baía são mais macias que os dentes da traineira! Vem, garanto que serão poucas as braçadas até o deserto!
Pela primeira vez, esboçou-se um sorriso inteiriço no rosto do Canibal. Deu-se isso após as cândidas palavras do andante, ao qual desviara o olhar hipnotizado. Enquanto isso, o balão assassino aproximava-se mais e mais, inflando com pedaços de pele, ossos esmigalhados, músculos e roupas de grife. O Canibal retrucou brandamente:
― Ainda não vê, não é, meu amigo? Olhe, olhe de novo ao que faz esta rede magnífica! O assassínio, a indiferença, o esquartejamento, como lhe disse, são subterfúgios do que essa máquina veio fazer de fato! Olha, olha agora a superfície da terra! Veja no que se torna ao ser esculpida pelas carícias dessas garras de cordas e foices! Olhe! Tente se livrar de sua doidice! Talvez consiga!
O andante relanceou os olhos nas montanhas envidraçadas, nos vales de concreto e só viu o caos e a ruína. O Canibal, contudo, via os sulcos e circunvoluções do seu enorme e apetitoso cérebro humano, envolto pelo voo de seus maravilhosos pássaros brancos sem pernas.
Ainda no arroubo de sua contemplação, o Canibal foi surpreendido e vergastado por uma das foices clavadas na rede e erguido por ela, como um peixe grande fisgado por anzol de igual proporção, para os containers de boca aberta. Antes de ser engolido por eles, junto com os restos desmembrados dos habitantes da cidade, ouviu o último apelo do andante:
― Lembre-se do Sapo, como ele às vezes deixa escapar as moscas de sua língua pegajosa! Desprenda-se desse horror e venha, venha ao deserto da alma, onde jaz a imortalidade!
Mesmo combalido e imóvel pela dor das tripas moídas, mesmo sentindo o último crepitar dos ossos esmagados por miríades de corpos que se atulhavam sobre ele, conseguiu gritar um último e rouco suspiro para o andante, dominado por uma compaixão ao ter percebido a incurável insanidade de seu parceiro de andanças, que ainda confundia sapos com pedras:
― Não tema, você é um lobo!
A Traineira não aguentou o peso das carcaças humanas e, chegando ao mar alto, afundou. As bestas marinhas tiveram um banquete como nunca visto. Até sardinhas ajuntaram-se em infinitos cardumes para mordiscar a carne com gosto de queijo, vinho, gasolina, plástico e tinta.
O andante seguiu seu coração e seus fluidos, retomando a marcha quase automática, não fosse um olhar sagaz, sábio, dissolvido e fundido a tudo o que via. Sobreviver era aprender. Sobreviver era a recompensa de quem se faz sapo, lobo e depois se atira em abismos. Chegou ao deserto e a sua calma.
Um sorriso surgia de seus lábios como a chama de uma vela num quarto de realeza em noite escura, e foi assim que reencontrou sua Loba na beira do abismo, como se ainda lá o procurasse. Recolocou o Sapo em seu lugar costumeiro.
Recebeu seus afagos em lambidas, patinhas inquietas nos ombros, agitar lépido da cauda imponente e ganidos desesperados de alívio. Abraçou-a ao afagar a pelagem de seu pescoço, mas ainda sentindo aquele fluir de líquidos nas pernas que já queriam seguir adiante, a lugar nenhum, a todos os lugares.
A Loba o seguiu calma, escutando o latido de sua voz musical e incompreensível, mas que ecoou em seu instinto primordial como a clareza do todo:
― Vem, vem amada lobinha! Vamos para casa. Não tenha medo. Só sobraram lobos como nós.
Eles começaram a seguir um caminho em linha reta, o qual chegava numa cidade de lobos, numa praia de águas de topázio, num deserto, em goelas de sapos e de abismos.
Filêbo Carvalho. Terminado em 13 de janeiro de 2007