Solidão e alavancas.
SOLIDAO E ALAVANCAS.
Alguem que quer ser uma especie de deus e compreender radicallmente a realidade, logo cairá em sucessivas armadilhas. Não entende que o entendimento é autoconstrutivo e aprisionante.
Uma toupeira vai escavando a crostra da terra com seu focinho e acaba se convencendo de que suas tunelizações sao a propria tecitura da realidade, da qual se apoderou. Mais tola é a humanidade, pois, ao descobrir que outra alavanca (que nao o pênis ou o focinho) podia aumentar sua apropriação da verdade, enforcou-se nas cordas com a ajuda de polias cada vez mais intrincadas.
Corre-se um terrivel boato: estamos às portas da extinção. Mas essa autofagia ja vinha precedida, no foro intimo, pela insidiosa solidão da toupeira, do ser castrado, que empunha a pinça de seu estojo com miriades de outras ferramentas, desde a tachinha na garagem à grua mais alta.
Quem constrói templos de concreto sobre o que fora uma árvore indefesa, ou consegue uma janela exclusiva com a visão da enseada, nao pode reclamar da solidão. A solidão é o metabólito toxico gerado nos nossos próprios intestinos cheios de autossuficiência.
Não ser feito só de cerebro e esqueleto nos lembra o figado, ou seja, nossas barreiras e defesas não perdurarão pela eternidade desejada. Um dia ruirão, e o urro da sequoia antiga, tombada sob machadadas, se fará ouvir nas almas adormecidas na peçonhenta solidão, que era a propria neblina de cigarro, do vapor do vinho e do incenso mistico, impotente. Nada, nem as unhas ou a espada, nos livrará desse encontro com a verdade ultima e inacessivel. Tudo é gênese e clímax. Entre eles, solidão.
Luciano Cilindro de Souza.

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