sexta-feira, 19 de abril de 2013

Meu filho predileto

Meu filho predileto.


Tenho varios filhos e os amo a todos. Tres cachorros, varios romances escritos, alguns quadros pintados e, como todo solitario, sou filho de mim mesmo. Somente eu sei a cota de sacrificio que foi gerar, criar e investir tanto neles. Sao a razao de meu viver e de meu sofrer. Neste vasto mundo que existe dentro de minha caixa craniana, eles sao parte integrante das minhas fantasias de perfeicao. Mas ha um componente sinistro e amargo de se ter filhos, principalmente filhos eternos: ha aquela necessidade de expo-los para os vizinhos e de provocar neles a mesma admiracao, exatamente a mesma, de preferencia uma ainda maior. Queremos que eles causem uma especie de fermentacao na  massa dos acontecimentos para que se tornem cada vez mais unicos e singulares. Mas, logo no bercario, o criador ja percebe que seu bebe nao eh tao diferente dos outros, compartilha caracteristicas que o tornam bem pouco original, e so sendo muito idealista, ou petulante, para achar que sua prole detem alguma originalidade incontestavel. Leva algum tempo para o criador perceber que seus filhos  nao se destacarao por trazer em si uma especie de virtude extraordinaria que os torne superior, isso pode ate acontecer, mas eh obra do acaso. Leva algum tempo para o autor perceber que sua obra nada tem de original quando se trata de caracteristicas essenciais, pois tudo ja foi dito, tudo ja foi pintado, tudo ja foi tentado e repetido a exaustao. O autor chega a uma fase que percebe sua obra de forma diferente, tal qual eh de verdade. Eh uma fase dificil, requer muita resignacao e humildade. Precisara decidir se a permanecera como eh, contentando-se com pequeninas e sutis diferencas que so sao essenciais e importantes para ele e sua obra, ou se vai submeter sua potencialidade a desafios muito trabalhosos para ver trofeus de orgulho e medalhas penduradas  em fanfarras de altas patentes. Chega uma hora em que o pai decidira se vai educar o filho para a serenidade do lugar-comum, ou se vai disputa-lo em competicoes mais gloriosas e arriscadas da vida a ver no que da. Chega uma hora triste, e as vezes longa, em que o autor deve decidir se vai expor a sua obra ou simplesmente deixa-la la, nos poroes da casa, nas gavetas do anonimato, onde permanecera intocada, mas a melhor de todas em seu mundo imaginario.

De: Luciano Cilindro de Souza

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LUCIANO CILINDRO DE SOUZA

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Luciano Cilindro de Souza
Cachoeira, Bahia, Brazil
Um partidão! Se quer saber, sou do tipo... Sou do tipo que não serve pra ninguém. Anonimato não define o que já alcancei. Ser o que não sou é etapa vencida ... Meu rótulo tem poucas palavras. # Buracos no meu queijo restam do vazio Muito pouco fatiado, pouco degustado. Cuidados, não vou além de não deixar-me estragar, Já é bem penoso viver e conservar. # Na fábrica comum dos seres comuns, Fui destinado ao mercado dos esquecidos. Quem não se esforça por lembrar dos preteridos, Não me verá naquela prateleira dos temperos banais. # Embora tenha gosto, cheiro, textura, Convenço-me de que devo usufruir-me - Como própio pão e como próprio queijo, não espero alheias mordidas! Propaganda é para os desesperados ou esperançosos. # Meus ingredientes clamam por combinação Não mais de todo tipo. Só por alguém que, no prato que come, Deseja variar o que já tenha vivido. # ASS: luciano cilindro
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