Meu filho predileto
Meu filho predileto.
Tenho varios filhos e os amo a todos. Tres cachorros, varios romances escritos, alguns quadros pintados e, como todo solitario, sou filho de mim mesmo. Somente eu sei a cota de sacrificio que foi gerar, criar e investir tanto neles. Sao a razao de meu viver e de meu sofrer. Neste vasto mundo que existe dentro de minha caixa craniana, eles sao parte integrante das minhas fantasias de perfeicao. Mas ha um componente sinistro e amargo de se ter filhos, principalmente filhos eternos: ha aquela necessidade de expo-los para os vizinhos e de provocar neles a mesma admiracao, exatamente a mesma, de preferencia uma ainda maior. Queremos que eles causem uma especie de fermentacao na massa dos acontecimentos para que se tornem cada vez mais unicos e singulares. Mas, logo no bercario, o criador ja percebe que seu bebe nao eh tao diferente dos outros, compartilha caracteristicas que o tornam bem pouco original, e so sendo muito idealista, ou petulante, para achar que sua prole detem alguma originalidade incontestavel. Leva algum tempo para o criador perceber que seus filhos nao se destacarao por trazer em si uma especie de virtude extraordinaria que os torne superior, isso pode ate acontecer, mas eh obra do acaso. Leva algum tempo para o autor perceber que sua obra nada tem de original quando se trata de caracteristicas essenciais, pois tudo ja foi dito, tudo ja foi pintado, tudo ja foi tentado e repetido a exaustao. O autor chega a uma fase que percebe sua obra de forma diferente, tal qual eh de verdade. Eh uma fase dificil, requer muita resignacao e humildade. Precisara decidir se a permanecera como eh, contentando-se com pequeninas e sutis diferencas que so sao essenciais e importantes para ele e sua obra, ou se vai submeter sua potencialidade a desafios muito trabalhosos para ver trofeus de orgulho e medalhas penduradas em fanfarras de altas patentes. Chega uma hora em que o pai decidira se vai educar o filho para a serenidade do lugar-comum, ou se vai disputa-lo em competicoes mais gloriosas e arriscadas da vida a ver no que da. Chega uma hora triste, e as vezes longa, em que o autor deve decidir se vai expor a sua obra ou simplesmente deixa-la la, nos poroes da casa, nas gavetas do anonimato, onde permanecera intocada, mas a melhor de todas em seu mundo imaginario.
De: Luciano Cilindro de Souza

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